Elizângela e Ronaldo comemoraram Bodas de Prata às margens do Rio Paraopeba em 2017. Foto: Arquivo pessoal

Casal de pescadores relembra celebração de bodas no rio antes do rompimento da barragem da Vale

Abril é especial para Elisângela Isabel Pereira Silva e Ronaldo José da Silva, moradores de São José, comunidade rural de Esmeraldas, na bacia do Paraopeba. No dia 25, último domingo, eles celebraram 29 anos de casamento.  

Entre as inúmeras afinidades, o casal comunga a paixão por pesca e pelo rio Paraopebalugar preferido deles para descanso, lazer, celebrações e um aliado de importantes conquistas.  A cumplicidade com o rio é tanta que, em abril de 2017, o casal de pescadores o escolheu como cenário para celebrar seus 25 anos de casados. Foi uma festança, que começou no sábado e terminou domingo à noite.  

“Fizemos as Bodas de Prata na margem do Paraopeba, para você ver como gostamos desse rio! O espaço ficou lindo, com decoração e mesas para convidados. Teve discursos, bolo, parabéns e eu joguei o buquê de floresFoi ali, no meio das árvores, onde a gente gostava de ficar. Foi muita gente, uma festa muito bonita!”, descreve Elisângela. 

 

A relação com o Rio Paraopeba vinha do lazer e também do sustento. Foto: Arquivo pessoal

Lembranças e saudades 

Elisângela e Ronaldo cresceram e sempre viveram às margens do Paraopeba, onde se podia ter água em abundância e, por meio de irrigação da horta e do ofício da pesca, buscavam boa alimentação e complementavam a renda para criar as duas filhas. Todas as férias e finais de semana tinham descanso e lazer assegurados com sombra e água fresca. Com o passar dos anos, construíram barraca de madeira e lona na beira do rio, com espaço de cozinha e quartos, para se acomodarem bem e passarem períodos maiores.  

Porém, desde o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho em 2019Elisângela e Ronaldo não mais celebram os aniversários na beira do rio contaminado e nem podem realizar uma boa pesca. “Esperamos poder voltar a pescar e receber o que temos por direito”, reivindica Elisângela 

O casal espera ter de volta a vida que tinha antes, com acesso ao rio e a compensação do que perderam. Elisângela é hoje uma liderança na comissão de atingidos de São Joséparticipa nas atividades da comunidade e de reparação junto à assessoria técnica independente – Nacabpara que a reparação do desastre-crime seja feita.  

“O que a gente queria de presente de aniversário de casamento é receber uma boa notícia em relação à situação da nossa e de várias outras comunidades ribeirinhas, de não poder pescar mais e entrar no rio, que era nosso único lazer. Hoje só temos lembranças e saudades”, declara. 

 

A ATI Nacab parabeniza Elisângela e Ronaldo pela conquista dos 29 anos de união e reitera o compromisso com a busca da reparação integral para todas as pessoas atingidas pelo desastre-crime da Vale! 

 

Lamento ribeirinho

Elisângela compôs uma versão da música “Romaria” para homenagear as famílias que perderam entes queridos no desastre-crime e nos contar (e cantar) como se tornou a vida de sua comunidade depois que o mar de lama levou o rio embora, e junto com ele a alegria, o sustento e a paz. Assista abaixo.


 

Texto: Brígida Alvim/Assessoria de Comunicação da ATI R3 Nacab