Finalizada a etapa de entrevistas presenciais, a pesquisa vai listar e caracterizar os prejuízos e danos econômicos das cadeias produtivas

 

Entrevista na comunidade de Beira Córrego, em Fortuna de Minas | Foto: Bárbara Ferreira

Entre os meses de junho e julho deste ano, as equipes de campo do Nacab realizaram entrevistas com pessoas atingidas de diversas atividades econômicas, para identificar as características das cadeias produtivas antes e depois do rompimento da barragem da Vale. Também, foram abordadas as dificuldades enfrentadas por elas desde o ocorrido. Este levantamento faz parte do Mutirão de Estudos sobre Recursos e Atividades Econômicas da região 3 da Bacia do Paraopeba, realizado pelo Nacab, que vai listar e caracterizar os prejuízos econômicos às cadeias produtivas locais. Os dados coletados apoiarão a construção dos projetos das comunidades (anexo 1.1 do acordo judicial) e serão incluídos na Matriz de Danos, contribuindo tanto para a estratégia de retomada do desenvolvimento, quanto para uma reparação justa.

 

Andamento da pesquisa na Zona rural de Paraopeba | Foto: Luiz Carlos de Oliveira

Coordenada pela Gerência de Desenvolvimento Territorial e Agroecologia da Assessoria Técnica Independente Paraopeba – Nacab, a metodologia da pesquisa consistiu em uma série de perguntas sobre: como era realizada a atividade econômica; o que era vendido ou produzido; para quem vendiam ou comercializavam os produtos ou serviços; quais as principais fontes de renda; a relação com fornecedores; e quais as perdas sentidas com o rompimento da barragem. As conversas em grupos e as entrevistas individuais foram desenvolvidas ao longo de dois meses com trabalhadores das principais atividades econômicas identificadas no território, como pecuaristas, agricultores, extrativistas, pescadores, comerciantes, empreendedores de turismo, prestadores de serviço, entre outras.

Na primeira etapa, foram realizadas rodas de conversas virtuais para apresentar o Mutirão de Estudos sobre Recursos e Atividades Econômicas e engajar os participantes. Em seguida, foram feitas aproximadamente 200 entrevistas aprofundadas presenciais, abrangendo todos os municípios da região 3 do Paraopeba.

Relatos 

“Se não fosse o Nacab dando resposta pra gente, quem daria? A Vale que não”, afirma Washington Emiliano, de Vista Alegre, em Esmeraldas | Foto: Marcio Martins

Para Washington Emiliano, proprietário de um bar e mercearia na comunidade de Vista Alegre, em Esmeraldas, a atividade desenvolvida foi uma importante oportunidade de escuta e de encaminhamentos. “O trabalho da assessoria técnica independente acalma um pouco nossas aflições. Se não fosse o pessoal do Nacab dando uma resposta pra gente, quem daria? A Vale que não seria, porque não é do interesse dela nos informar. O Nacab vem e nos informa e nos ajuda muito também no contato com a Defensoria Pública, informando à instituição sobre a nossa situação. Então, é um serviço essencial não só por fazer a informação chegar, mas por nos fazer sentir auxiliados”, avalia o comerciante.    

Alvair da Silva, mais conhecido como “Branco”, é proprietário de um areeiro na Zona Rural de Paraopeba e sente os impactos do desastre-crime da Vale em sua atividade econômica. “Na mineração de areia a gente tem alguns prejuízos porque às vezes tira uma areia que está contaminada e tem que descartar. E quando aconteceu o rompimento a gente teve que paralisar. A expectativa que fica é de que algo possa acontecer para ajudar a recuperar esses prejuízos. A gente espera que vá dar certo”, descreve ele, demonstrando otimismo em relação à pesquisa.

 

Marcilíra Monteiro, de Soledade, distrito de Pequi, relata mudanças econômicas e afetivas | Foto: Bárbara Ferreira

Para a agricultora Marcilíra Monteiro, de Soledade, distrito de Pequi, houve muitas perdas a partir do rompimento, não só econômicas, mas também na relação da comunidade com o Rio Paraopeba. “A gente produzia muitas coisas aqui, principalmente polvilho, farinha e hortaliças. E além de não conseguirem mais produzir, agora as pessoas não querem mais consumir os produtos daqui, porque têm medo. Outra questão muito difícil são as nossas idas ao rio, que não puderam mais acontecer. A nossa vida era ali”, lamenta Marcilíra.

Consolidação de dados

De acordo com Fábio Meira, especialista pleno da Gerência de Desenvolvimento Territorial e Agroecologia, o processo atual, que é de listar e organizar as informações coletadas a partir da escuta das pessoas atingidas, vai possibilitar uma visão mais ampla da região 3, considerando os grupos e atividades econômicas. “Nossa expectativa é de analisar todo o material colhido no trabalho de campo e consolidar dados mais sólidos. Vai ser possível, por exemplo, fazer um retrato do território todo, relacionando as características mais fortes em cada município”, descreve. Fábio também ressaltou a importância de a pesquisa ter sido feita presencialmente com as pessoas atingidas, a partir de julho, seguindo protocolo de cuidados e de prevenção contra a Covid-19.  

A gerência está trabalhando na produção do diagnóstico preliminar, que contribuirá para a construção da matriz de danos e também para subsidiar propostas de projetos para o Anexo 1.1 do acordo judicial vigente, na perspectiva de fortalecer a retomada do desenvolvimento econômico das comunidades da Bacia do Paraopeba. 

Reportagem: Bárbara Ferreira, Marcio Martins e Marcos Oliveira / Assessoria de Comunicação ATI Paraopeba Nacab