Assessoria Técnica Independente da Região 3, NACAB, realizou pesquisa e reunião ampliada para entender as percepções e debater o tema com as pessoas atingidas

Nas últimas semanas, alguns veículos da imprensa mineira e nacional noticiaram os resultados de um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encomendado pela Vale, que sugere que o rio Paraopeba está recuperado. A notícia gerou inquietação entre as pessoas que tiveram suas vidas impactadas pela contaminação das águas do rio, causada pelo rompimento da barragem de rejeitos da Vale, em Brumadinho, em janeiro de 2019.

Preocupada com o efeito das informações, a equipe do NACAB, responsável pela Assessoria Técnica Independente (ATI) da Região 3 do Paraopeba, realizou uma pesquisa para medir a percepção das pessoas atingidas em relação às notícias que tiveram como manchete a recuperação das águas do rio. O resultado da pesquisa foi apresentado e comentado por especialistas e atingidos, em reunião online na última quinta-feira, 15 de outubro, com mais de 100 participantes, entre membros da ATI e pessoas atingidas. Também participaram da reunião convidados de algumas das instituições que acompanham o processo da reparação coletiva: Marcelo Vilarinho, da Coordenadoria de Inclusão e Mobilização Social do Ministério Público de Minas Gerais (CIMOS – MP); José Geraldo Martins, do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB); Karolina Hugo e Gustavo Campos, da Coordenação de Acompanhamento Metodológico e Finalístico (PUC-Minas).

Lauro Magalhães, especialista da Gerência de Qualidade da Água do NACAB, fez uma apresentação sobre o estudo apresentado pela Vale nas notícias. “Primeiramente, a pesquisa foi contratada pela Vale, causadora da contaminação e dificilmente traria resultados que não fossem agradar à contratante. Outro ponto importante é que os períodos de coleta de água não foram os mais adequados para os estudos, por não incluírem os meses chuvosos, de dezembro a início de março, em que há grande movimentação do leito do rio e a concentração de poluentes aumenta. Além do período de seca, foi feita uma coleta no final de março, quando as chuvas já estavam mais brandas”, descreve Lauro. Por fim, enfatizou que o órgão oficial da gestão das águas do estado, o Instituto Mineiro das Águas (Igam), mantém a recomendação para não utilização da água do Rio Paraopeba.

Sobre a atuação da ATI no controle da qualidade da água, Lauro contou que já foi iniciado o mapeamento de pontos de abastecimento para consumo nas proximidades da calha do Paraopeba, e que está previsto para o próximo ano um estudo aprofundado sobre a água do rio, com objetivo de dar segurança aos atingidos e respaldo às ATIs e Instituições de Justiça.

Origem das notícias

Raul Gondim, da equipe de Comunicação da ATI R3, falou sobre o contexto das notícias, sobre a importância de os veículos de comunicação irem ao local checar as informações recebidas e a relação do momento pré-audiência pública com a notícia. “É importante entendermos de onde vem essa notícia e quais os interesses envolvidos. O estudo divulgado foi contratado pela própria Vale, que inclusive é uma das maiores anunciantes dos veículos de informação”, disse o assessor, que também destacou as ações realizadas pelo NACAB, via assessoria de comunicação, em resposta aos noticiários. “Nós nos preocupamos em alertar aos atingidos sobre a irresponsabilidade das informações repassadas pela imprensa e sobre o risco do uso da água, publicando e divulgando uma nota construída junto com a Gerência da Qualidade da Água. Em seguida enviamos, em parceria com as demais ATIs, uma nota para a imprensa indicando estudos realizados por outros órgãos, como o Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM, que reforça que a água do rio não deve ser utilizada”, destaca.

Os participantes da reunião fizeram perguntas relacionadas ao uso da água, como, por exemplo, se a água das cisternas pode ser utilizada no cultivo das hortaliças, a dificuldade para tratar dos animais que não podem mais acessar o rio, a perda considerável de terreno que foi  inutilizado devido à contaminação do solo, entre outros apontamentos.

Cláudia Simeão, da comissão de atingidos de Pequi, demonstrou sua preocupação sobre as informações chegarem até às comunidades mais distantes. “Acredito que o NACAB deveria fazer um compilado dos estudos que já foram feitos pelas instituições ligadas ao Estado e traduzir isso para uma mensagem acessível para os atingidos”, sugeriu.

“Os atingidos pelo crime da Vale estão desde Brumadinho até a represa de Três Marias, ao longo do Paraopeba. A empresa vai pautando notícias na mídia para que as pessoas naturalizem a informação de que o rio está limpo. Quem mora perto do rio e o conhece sabe que ele está contaminado, vê os peixes morrerem. Precisamos combater essa estratégia comum da Vale de contar uma mentira várias vezes para que pareça verdade”, disse José Geraldo, representante do MAB.

Percepção das pessoas atingidas

A pesquisa de percepção das pessoas atingidas sobre notícias veiculadas acerca da água do Paraopeba envolveu uma força-tarefa da ATI NACAB para aplicação de um questionário por ligação telefônica, no dia 9 de outbro, alcançando 127 pessoas dos 10 municípios e 21 comissões de atingidos da Região 3. Angela Rosane, gerente de Participação e Engajamento, conta que as questões foram elaboradas cuidadosamente para que não houvesse indução nas respostas.

De acordo com o resultado da pesquisa feita com amostra de 127 pessoas atingidas da Região 3, 91 pessoas entrevistadas disseram terem ouvido ou lido as notícias sobre a suposta recuperação do rio Paraopeba. Perguntadas se confiam em retomar a utilização da água do rio, 123 pessoas responderam que não confiam. A maioria dos entrevistados, 111 pessoas, quando perguntadas se as notícias deveriam continuar circulando ou não, responderam que a veiculação tem que ser interrompida.

Outra questão que chama a atenção é em relação à presença de placas de informação alertando sobre a contaminação do rio, desde o rompimento da barragem. Somente 23 pessoas responderam que há placa informativa próxima à sua residência.

Texto: Márcio Martins / Assessoria de Comunicação ATI R3 – NACAB.